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Do coletivo

A agrofloresta era bem-vinda. As pessoas, não.

Enquanto o assunto era meio ambiente, a aceitação do bairro era total. Ela mudou quando as pessoas em situação de rua passaram a fazer parte.

Coletivo Agrofloresta da Urca ·

Em dezembro de 2017, mais de 40 pessoas se juntaram para intervir numa área abandonada de cerca de 60 m², cheia de entulho de obra, mato e lixo, no estacionamento do antigo Cassino da Urca / TV Tupi. Era o primeiro esforço coletivo daquele tipo no bairro.

A resposta foi boa. Transformar um canteiro degradado em agrofloresta produtiva é o tipo de coisa que quase todo mundo aplaude. Enquanto a AFU tratou apenas das questões voltadas ao meio ambiente, a aceitação era total.

O que mudou

O espaço não era vazio antes da gente. Era ativamente usado por pessoas em situação de rua, que dormiam e viviam ali muito antes de existir o primeiro canteiro.

À medida que o trabalho avançou, aconteceu um processo que ninguém desenhou numa reunião: essas pessoas passaram a fazer parte. Não como assistidas — como mantenedoras. Participavam dos mutirões, cuidavam do espaço, comiam da colheita que era distribuída entre quem estivesse ali, tivesse trabalhado ou não.

Foi nesse momento que começaram as reclamações. Alguns vizinhos, incomodados com a presença dessas pessoas, passaram a agir contra o movimento. Certa parcela mais conservadora dos moradores chegou a denunciar as intervenções às autoridades ambientais, sob a alegação de que o trabalho ali era depredação de espaço público — o mesmo espaço que estava coberto de entulho até a gente chegar.

A agrofloresta continuava sendo bem-vinda. As pessoas, não.

O que o coletivo fez

O enfrentamento se deu de forma bastante amorosa. A escolha foi o diálogo: mostrar aos moradores incomodados que aquelas pessoas tinham grande valor, cada uma na sua especificidade, e que estavam contribuindo significativamente na manutenção daqueles espaços — cumprindo com dignidade seus papéis diante da sociedade.

Foi preciso também construir o lado formal. O coletivo redigiu documentos com justificativas a órgãos do poder público e à sociedade organizada, anexando:

  • um abaixo-assinado com 700 assinaturas presenciais de moradores;
  • cartas de apoio de instituições — professores e pesquisadores da UFF, da UERJ e da UNIRIO, além de escolas e projetos do bairro;
  • o histórico do que havia sido feito no território.

Com isso, o processo chegou à Secretaria Municipal de Desenvolvimento, Emprego e Inovação, que após vistoria reconheceu a potência da ocupação daquele espaço. Todas essas ações foram articuladas de forma coletiva pelos membros da AFU.

O resultado que importa

Perguntado sobre o principal resultado desses anos, o coletivo não responde com número de mudas.

O principal resultado foi promover a reconexão de várias pessoas em situação de rua com a sociedade, a partir de encontros e troca de saberes entre pessoas vindas de diferentes extratos sociais — mostrando que esse convívio não só é saudável como é totalmente possível.

Algumas dessas pessoas, que passavam momentos sem perspectiva, voltaram a valorizar a vida e o convívio social. Isso é resultado da interação provocada pelos princípios da agroecologia e da permacultura em contexto urbano. Não é efeito colateral do projeto: é o projeto.

E há uma cena que resume tudo. O banheiro seco construído no espaço exigia uma rotina de explicação pessoa a pessoa, porque placa não resolvia. Com o tempo, passou-se a ver os próprios moradores sem teto, os mais antigos no projeto, ensinando os recém-chegados a usar.

Quem estava ali antes da agrofloresta virou quem cuida dela.

O desafio que continua

Escrito no relato do coletivo, o maior desafio não é a terra, o orçamento nem a prefeitura:

A transformação coletiva da espécie humana no sentido de que cada indivíduo se sinta parte da natureza e não um ser superior com direitos de usurpá-la — e, mais importante ainda, que cada cidadão olhe para o seu semelhante com o amor e respeito merecido por todos, independentemente das oportunidades que cada um teve na sua trajetória.

Toda agrofloresta urbana vai encontrar esse limite em algum momento. Costuma aparecer no dia em que o projeto deixa de ser bonito e começa a ser incômodo — e é aí que se descobre se ele era sobre plantas ou sobre pessoas.

Sozinhos somos pequenos. Juntos somos gigantes.

Venha para um mutirão

Não precisa ter experiência nem trazer nada. A gente ensina tudo no dia.

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